Ângelo Beck

Menina do Pedágio

Postado em 25 de Maio de 2018

Por Você

Olá,

enquanto eu viajo, vou pensando em muitas coisas. Quando eu enxergava, ia olhando a paisagem pelo caminho. Muitas viagens durante a noite, gostava de ver as florestas enegrecidas pela escuridão, e a luz da lua que iluminava a estrada por onde passávamos. Eu era criança, e como toda a criança, adorava ver os caminhões passando cheios de luzes coloridas. Durante o dia, gostava de ver os animais no pasto, as casas, árvores, rios e pontes...

Hoje eu confesso que sinto saudades de poder ver tanta coisa. Mas continuo gostando muito de viajar. E vou viajando, lembrando das coisas antigas, e pensando em coisas novas. Como seria bom poder atravessar o nosso país em um trem ultra-veloz? Como será que são escavados aqueles túneis gigantes? Como será que fazem a manutenção de todas estas estradas? ...e assim vou me ocupando pelo caminho, sendo embalado pelas ondulações da estrada. Às vezes dou uma cochilada, às vezes vou beliscando umas bolachas... Eu adoro ouvir música, e também gosto de conversar com os companheiros de viagem.

Pois é... e eu adoro viajar. Para conhecer lugares novos, para fazer cursos, para trabalhar, para rever bons amigos...

Mas sabe? Tem uma coisa que não sai da minha cabeça. Vou e volto por estas estradas e sempre tem uma coisa que toca o meu coração: tu. está certo que não nos conhecemos. Talvez nunca nos tenhamos visto antes. Mas sempre que eu paro em um pedágio, fico pensando em ti, e em todas estas moças que trabalham aí por horas, dias, anos... atendendo os viajantes, um a um... indo e vindo, subindo e descendo as serras do nosso país.

Eu confesso que eu não gosto de pedágios. Sabe? Ter que pagar para andar pelas vias públicas não é o tipo de política que eu apóio. Mas eu gosto tão pouco de política, que na verdade eu prefiro nem me preocupar com isto. Tem gente que se presta para discutir e resolver estas coisas. Então, do jeito que eles resolverem estará muito bem para mim. Acho que isto faz parte da democracia: a gente tem que acatar as decisões dos nossos representantes. É... eu também concordo que faz parte da democracia lutar pelos nossos direitos, expor a nossa opinião, coisa e tal. Mas sabe? Brigar me dá uma preguiça! Eu cansei de brigar, defender, atacar... hoje eu prefiro muito mais o amor. E falta tanto amor por este mundo, que eu prefiro amar sempre que eu posso. Aí deixo a guerra para quem se dispõe.

Então aqui está mais uma praça de pedágio. Dói um pouco meter a mão no bolso. Dizem até que o bolso é o órgão mais sensível do ser humano. Mas eu discordo. Sabe? Vamos parar o carro em um guichê, que mais parece um aquário. Lá dentro tu nos atenderá. Vai trocar umas notas, vai nos entregar um ticket, dará um sorriso e nos desejará boa viagem. Aí meu coração começa a pular. E durante mais não sei quanto tempo isto ficará na minha cabeça: Como será a vida destas moças? Como é passar o dia atendendo as pessoas sem poder criar nenhum vínculo mais profundo com alguém? O que se passa no teu coração?

E eu confesso que me vem lágrimas nos olhos. E eu não sei explicar bem o porquê. Mas eu senti mesmo a vontade de fazer alguma coisa, então eu escrevi esta pequena carta. Ela ficou guardada algum tempo aqui comigo, até que eu fizesse uma nova viagem. Então hoje eu a estou entregando a ti. Também fiz umas cópias para dar a outras colegas suas de profissão - aí eu gostaria que não ficasses chateada por isto, tudo bem?

Mas eu queria dizer assim, nem sei bem o quê. Queria ter mais tempo para bater um papo. Não por nada não. Talvez contar uma piadinha, tocar uma música... sei lá. Apenas um momento agradável. A gente passa às vezes horas viajando, e vez ou outra para aqui e ali para pagar o pedágio. E somos atendidos sempre muito bem por estas pessoas. E são as únicas pessoas com quem trocamos algumas palavras durante a viagem. Então eu só queria dizer assim um muito obrigado, lá do fundo do coração. Não gosto nem de pensar que alguém fez parte da minha vida, alguém me prestou um favor, um serviço... e eu não tenha podido nem agradecer com sinceridade. Eu não te conheço, nem tu me conheces. És para mim, uma moça do pedágio. Eu, para ti, um viajante. Queiras receber, em nome de todas as moças do pedágio, meu agradecimento, em nome de todos os viajantes que não tiveram tempo para parar. Sois importantes para nós. Não porque pedágios sejam importantes ou necessários... mas simplesmente porque existis. Apenas porque nos prestam um serviço com dedicação, e isto é digno.

Eu acredito que o mundo se tornará tanto melhor quanto mais formos capazes de fazer pequenos atos de amor. Coisas simples assim, como dizer a alguém que lhe desejamos um bom dia. Então, por favor, aceita esta mensagem como uma tentativa assim ingênua de trazer um pouco de alegria para a vida de alguém. Queria poder te dar um presente, assim tão belo quanto é ser presenteado com teu sorriso. Melhor seria se eu o pudesse ver, mas durante tantos anos eu pude enxergar sorrisos, mas nunca os percebia de fato. Quem sabe hoje eu não saiba enxergar melhor sem os olhos do que pude antes com eles?

Eu não faço idéia de como é passar o dia atendendo uma porção de gente, sem poder estabelecer um vínculo com ninguém. Eu tenho certeza que tu compreendes que estamos viajando, e que parar neste momento não faz parte do nosso roteiro, da nossa vida. Mas compreender só com a cabeça, não é o mesmo que compreender com o coração: como é cruzar a tua vida com milhares de pessoas cujas vidas não incluem cruzá-las com a tua? Pois eu quero que saibas que eu passo por aqui com o coração apertado. Eu não quero ser mais uma destas vidas que cruzam com a tua com indiferença. No mínimo eu quero que saibas que eu estimo a tua vida com tanto carinho quanto estimo todas aquelas com as quais cruzei e hei de cruzar. Se o destino fez com que nos encontrássemos, sorte a nossa, não achas? Então podemos aproveitar este instante, mesmo que seja assim um instantinho curtinho... só o tempo de dar o troco e entregar um ticket, para trocarmos um sorriso e agradecermos a Deus por esta oportunidade abençoada. E eu deixo nesta carta por escrito, tudo aquilo que talvez não tenha cabido no sorriso, tudo aquilo que eu queria te dizer naquele instantinho.

Obrigado de coração!

Tenhas certeza de que estarei rezando por ti esta noite. Mesmo sem nos conhecermos, eu tenho certeza de que os anjos saberão encaminhar meus desejos de felicidade para a pessoa certa. Então tu e todas as tuas colegas de profissão estejam certas de que, pelo menos para um destes milhares de viajantes que cruzam contigo todos os dias, o teu sorriso faz diferença.

Com sinceridade,

Ângelo Beck

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