Ângelo Beck

Meu Pai é um Artista

Postado em 25 de Maio de 2018

Olá,

quem dera a vida fosse simples; quem dera pudéssemos resolver os nossos problemas estralando os dedos; quem dera pudéssemos compreender a vida em duas palavras...

Pois aqui te escrevo muitas palavras e acho que não conseguirei te explicar tudo o que eu gostaria.

O cachorro, só para pirraçar a vizinha, todo o dia faz xixi bem na sua porta. Tem uma goteira bem em cima da nossa cama. Quando chove, jogamos um plástico sobre a coberta...

Tantas coisas que acontecem todo o dia. Tantos detalhes, tantos sentimentos... Mas também tem algumas coisas que acontecem no nosso coração, na nossa alma, que não conseguimos descrever assim tão fácil quanto estas banalidades. Coisas que parecem muito mais importantes.

Eu gostava muito de acampar com o meu pai. Normalmente íamos ele, eu e nossos irmãos. Mas teve uma vez que fui só eu e ele. Fomos para um lugar muito bonito. Era uma praia deserta onde só se podia chegar caminhando cerca de uma hora por uma trilha estreita, beirando o costão.

O caminho começava beirando um rio, e era rodeado de árvores grandes e frondosas. Aqui e acolá podíamos ver o rio e o mar. Uma clareira, uma pequena praia, uns barcos e uns pescadores. Um rancho velho de madeira na beira da praia.

A trilha acompanhava o rio até onde o rio desaguava no mar. E podíamos ver, do outro lado do rio uma porção de dunas de areia branquinha que se estendiam da praia até umas montanhas lá longe. Aí a trilha subia pelo pontal até o outro lado. Aqui só cresciam arbustos pequenos, e talvez por causa do vento, o pontal era cheio de grandes pedras cinzentas. Algumas delas tivemos que subir para acompanhar a trilha. Estas pedras pintavam de cinza uma relva de grama bem baixinha que parecia até que alguém aparou. A vegetação neste pontal era dura e espinhenta. O mar batia contra o costão de pedras com ondas violentas.

Vento, ondas e pedras... Uma cena onde os milhares de anos vai esculpindo suas marcas. A fúria das ondas contra a dureza das rochas. O vento forte e o Sol abrasador. De repente nos sentimos fora do tempo. Em um cenário onde o homem não tocou, poderíamos estar olhando para o agora, ou também poderíamos estar olhando para alguns milhões de anos atrás. Aqui o tempo parou.

E prosseguimos o caminho. Contornamos o pontal até ver a nossa frente uma praia deserta. A trilha foi descendo até pisarmos na areia fofa. De um lado as ondas quebravam majestosas; do outro, grandes pedras formavam um paredão não menos majestoso; à nossa frente se estendia a praia, e, sobre as pedras, uma vegetação abundante e colorida cobria a encosta de uma montanha. A montanha não era muito alta. Porém era tão íngreme, que teria sido quase impossível tê-la cruzado sem contorná-la pelo pontal.

A praia não era muito grande. Talvez uns 300 metros. Bem pequena se comparada com a Praia da Joaquina, com seus 14 quilômetros. Cruzamos a praia até chegar a outra encosta. Subimos por entre as pedras até alcançar uma colina verde. Dali podíamos ver, do outro lado, um pequeno vale até outra colina. Tudo bem verde, com poucas árvores. Um riachinho de água doce corria pelo vale até alcançar as rochas onde batiam as ondas estrondosas do mar. Algumas vacas pastavam por aí.

Aqui paramos para levantar acampamento.

Ajudei o meu pai a armar a barraca. Uma barraca do tipo iglú, de um verde que combinava com a paisagem. Podíamos beber da água do riacho e tomar banho nele; arranjar um pouco de galhos secos para fazer uma fogueira... se bem que meu pai havia levado uma latinha de nescafé com álcool, e podíamos esquentar água de uma forma muito prática. Para apagar o álcool, bastava colocar a tampa na latinha.

Nos dias que se seguiram não tínhamos muitas obrigações além da higiene pessoal e de fazer a comida. Mas também não podíamos contar com a vida confortável da cidade - apesar de que não queríamos isto mesmo. Então tínhamos muito tempo livre e podíamos pintar o quanto quiséssemos.

Cavaletes, pincéis, pranchetas, água, paninho, tintas, godê, chapéu... e assim nos instalávamos em algum lugar bonito e passávamos horas pintando.

O que eu mais gostava de pintar era o encontro do mar com a terra. Mas não o encontro suave das ondas que banham a praia, e sim as ondas que espumam brancas por entre as rochas negras do costão. De um lado o verde das colinas, do outro o azul do mar. Eu sabia como pintar, mas nunca tinha usado aquele tipo de aquarela. Adorei pintar com aquarela, porque eu podia imprimir cores fortes e vibrantes como o marrom quase negro das rochas e o azul profundo do mar. E também podia produzir tons suaves como o céu azul e as rochas mais altas do penhasco. Sabia também que para produzir o branco da espuma do mar era preciso deixar sem pintura o próprio branco do papel. Achei muito divertido fazer surgir a espuma branca apenas pintando ao seu redor o mar profundo e as rochas negras. Este impacto do branco da espuma com as rochas negras e o mar profundo davam um destaque especial ao centro do quadro, enquanto ao seu redor, o céu, a vegetação e o próprio mar mudavam de cor suavemente.

Meu pai sabia que, para se produzir bons quadros, era preciso material de qualidade. Mas papel bom é caro. Eu pintava em retalhos de papel Canson, que sobravam do corte de outros quadros. Foi nestes retalhos que ele havia aprendido a pintar com seu tio Aldo. E agora eu tinha também este privilégio.

Mas, para um garoto, se divertir pintando por muitas horas em silêncio se torna tedioso. Meu pai pretendia ficar acampado por quatro dias... e é claro que eu quis voltar já depois do segundo dia. E é claro que o meu pai sabia disto. E ele confiou em mim, e me mandou de volta sozinho.

Se eu estava entediado por não ter companhia para brincar no acampamento, agora eu sentia uma grande solidão. Embarquei no ônibus de volta para a cidade e já estava anoitecendo. Quando cheguei, com as minhas obras de arte, fui elogiado. Eu tinha produzido belos quadros. Mas me sentia sozinho. Sentia saudades do meu pai, e a companhia de outras pessoas não preenchia o vazio que eu sentia.

Eu não me sentia um artista. Havia feito belos quadros, sim, mas não havia feito mais que retratar um pouco da natureza. Recebi elogios, e sei que estes quadros estão guardados até hoje com o meu pai.

Mas... o que é ser artista?

Meu pai fazia sim obras admiráveis. Não é porque os quadros dele eram maiores que os meus. Ele sabia pintar de uma forma poética - e eu sempre admirei isto. Fazia uns tracinhos verticais assim pelo quadro, e olhando de longe, víamos os capins sobre as dunas. Ele fazia uns traços horizontais, e, de longe, víamos o rio que corria defronte da vegetação. Tem muitos quadros dele dos quais eu nunca vou me esquecer. Não me lembro do que é que ele pintou naquele acampamento, mas me lembro com saudades de um quadro onde aparece um mar claro dando na praia, e, no céu, uma pesada nuvem escura fechando o tempo. Na praia os pescadores estão recolhendo suas canoas, e ainda brilha uma luz, do lado do céu claro. E esta luz, que não se vê de onde é que vem, mas que ilumina a praia e nas águas rasas, dão uma profundidade que me impressiona, em contraste com a nuvem escura.

Outro quadro que eu guardo no meu coração retrata uma rua de barro cheia de poças de água. E o contraste entre o laranja do barro com o reflexo azul do céu nas poças de água, tornam o quadro muito especial. Talvez ainda mais especial porque foi pintado na praia de Ubatuba, onde passamos umas férias deliciosas, que foram marcadas por inúmeras rodadas de ludo, muita diversão na praia onde cavamos muitos buracos na areia; um chalé onde eu quase botei fogo na casa por causa de um lustre elétrico - pois ele estava pendurado no teto e eu o podia girar com a mão... até que os fios elétricos se enroscaram e saiu uma faísca enorme! - e muita chuva grossa no fim da tarde. Pois este clima quente e úmido está bem presente neste quadro, e me traz a lembrança daquele lugar e daquela felicidade.

Mas em todos os quadros do meu pai tem algo de especial. Não é a técnica. É uma poesia. Se compararmos os quadros dele com o lugar que ele retratou, percebemos que o quadro tem alguns aspectos bem diferentes e ao mesmo tempo iguais. É uma atmosfera. Talvez as cores. Às vezes são diferentes das cores verdadeiras, mas os contrastes, as combinações... Muitos rabiscos não se assemelham em nada aos objetos que representam... mesmo assim, parece que alguma coisa da essência destes objetos, o seu lugar dentro do quadro... faz surgir um sentimento.

Não é uma coisa óbvia. Não dá para explicar em palavras... As vezes sinto que era um pouco de solidão. Talvez porque meu pai pintava por muitas horas sozinho; talvez porque não haviam pessoas retratadas nos quadros... mas talvez porque fosse assim que o meu pai estivesse se sentindo.

Meu pai sempre dizia que ainda não estava satisfeito com seus quadros. Ele ainda não estava conseguindo expressar o que ele queria. Seus quadros eram lindos, e, mesmo assim, ele ainda estava insatisfeito. Minha mãe chegava a ficar até braba, e mesmo nós - seus filhos - dizíamos que já estava pronto. Mas um dia ele foi para o seu ateliê, retocar um quadro, dizendo aquilo - que ainda não estava satisfeito.

Aí eu entendi.

Eu entendi que o que ele queria pintar não se podia ver na paisagem - e é por isto que ele podia terminar o quadro dentro do ateliê. Eu entendi que o que ele queria pintar estava dentro dele. Eu não sabia o que era, mas achei justa a sua insatisfação. Entendi também porque é que eu não me sentia um artista: eu apenas retratava a paisagem. Eu não intensionava colocar no quadro nada além daquilo que eu estava vendo. Sabia que eu nunca pintaria igual a uma foto. O azul do mar que eu usava era muito mais intenso e profundo que o mar que eu podia ver. Também a mata era muito mais brilhante que o original. O branco da espuma, o negro das pedras... tudo no meu quadro era mais fantástico que o real. Ficou bonito sim. Mas eu não me sentia um artista. Eu me divertia com a técnica, descobria novas possibilidades, experimentava. Eu sabia que meu pai também experimentava. Mas ele já estava muito longe de experimentar os aspectos técnicos da tinta e do pincel. Ele experimentava um jeito novo de contar o que se passava no seu coração.

Aos poucos fui entendendo mais o que é que meu pai queria pintar, e também aprendi a ver nos seus quadros o que é que ele queria contar - porque era tão poético. Descobri que eu também era um artista, mesmo que eu não quisesse me considerar assim. Porque eu entendi que, quando a gente produz alguma coisa, mesmo que tentemos retratar algo o mais fielmente possível, sempre imprimimos nas nossas obras algo de nós mesmos. Até mesmo o fato de escolhermos reproduzir uma coisa e não outra, isto também conta algo sobre o que vai no nosso interior.

Mas há uma diferença tão grande entre os quadros do meu pai e os meus! Pelos quadros do meu pai se pode ver uma admiração pela natureza. Se pode ver uma solidão, mas que não é uma solidão de quem perdeu o objeto do seu apego. É uma solidão de quem se vê acordado diante do mundo. De quem se descobre um indivíduo diferente da natureza - de quem descobre ser um Homem - no sentido mais espiritual da palavra.

Meu pai é um Homem de verdade. Além disto, é o Meu pai - e isto me enche de orgulho. Suas obras são as obras de um homem de verdade, enquanto as minhas não retratam mais do que um adolescente que se impressiona e brinca na vida, mas que ainda falta para ser homem. Meu pai não é um adolescente. Meu pai é um adulto - E na minha adolescência eu conheci poucas pessoas as quais eu podia considerar adultas. A maioria delas parecia ser um bando de adolescentes crescidos, e esta impressão dura até hoje.

Sinto saudades de pintar.

Pai, se eu pudesse enxergar novamente, é certo que nós iríamos passar quatro dias pintando em uma praia deserta. Talvez eu só ficasse te olhando pintar, porque eu não sei se eu conseguiria produzir alguma coisa que presta. Mas o quanto eu te admiro!

Compreendo a tua insatisfação, mas é uma pena que eu não possa te ajudar. É que eu não sei explicar o que tu és. Mas eu sei que tu me amas, e por tu teres me amado, eu sei quem tu és, e eu te amo também! Eu não sei se te serve de consolo, mas mesmo que eu não possa enxergar os teus quadros, me lembro deles e eu posso te ver em cada um deles.

Tu me ensinastes a ver o artista por detrás das obras. E eu aprendi que o bom artista não é o que pinta os quadros mais bonitos. O verdadeiro artista é quem consegue expressar, através das suas obras, a sua alma. Por isto é que eu posso admirar hoje as obras de um Oscar Niemeyer, de um Escher, um Rembrandt, Van Gogh e tantos outros. Estes todos tem seu mérito por terem conseguido colocar no mundo sua própria alma, mas eu confesso que são poucos os que tem uma alma bonita. São poucos os que sabem amar.

Estou com saudades do meu pai.

Ângelo Beck

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