Ângelo Beck

Visita a 1920

Postado em 25 de Maio de 2018

- Alô? É da casa de dona Marcília?

- Sim, é ela que está falando.

- Estou à serviço de dona Neide, e ela vos convida para que venha visitá-la.

- Ah sim, muito obrigado. Mas será conveniente que seja amanhã.

- Avisarei a ela, senhora.

- Espera!

- Sim?

- Meu filho precisa ouvir a voz de um homem.

- Como?

- Gostaria de que conversasses um pouco com o meu filho.

- É... bem, claro! Ponha-o na linha.

- Agora ele está ocupado. Poderíeis ligar mais tarde?

- Sim, eu ligarei.


O jovem desliga o telefone, e voltando-se para a camareira exclama:

- Viu o que me aprontastes? Agora Sra. dona Marcília quer que eu converse com o filho dela.

A camareira rí-se e diz:

- E há algum problema?

- Ora! Eu nem a conheço!

- Mas sabendo que vens da casa de dona Neide certamente és de confiança!

- Mas nem aqui eu trabalho!

- Isto pouco importa. Desde que te conheci, percebo que Tens desenvoltura. Certamente não terás dificuldade para resolver o que quer que seja. E metendo-te com gente graúda, só te darás bem!

- Que seja. Eu tenho dificuldade até para falar o português, e agora tenho que me apresentar como homem de família!

- Pare de se lamentar. Se estás aqui, leva isto adiante.

- Então que seja. Vamos ligar novamente para... para...

- Sra. dona Marcília.

Após algum tempo, o jovem pega o telefone e disca o número anotado em uma agenda.

- Alô?

Interpela a voz do outro lado da linha.

- Alô. Estou à serviço de dona Neide. A Senhora me pediu para que eu conversasse com seu filho, lembra?

- Claro. Deixa eu o chamá-lo.

Após alguns instantes a voz de um jovem acede ao telefone:

- Alô?

- Olá rapaz. Estou à serviço de Dona Neide, e tua mãe me pediu para que eu conversasse contigo.

O rapaz fica confuso.

- É... bem...

- Eu não sei do que se trata, mas quem sabe eu possa ir até a tua casa.

- Sim... É. É melhor assim.

- Podes me dizer o endereço?

- Rua das Flores, número 55.

- Conheces a camareira de Dona Neide?

- Sim, eu a conheço.

- Pois vou levá-la comigo. Ela conhece o caminho.

Após desligar o telefone, a camareira resmunga:

- E porque é que eu tenho que acompanhá-lo?

- Não me metestes nesta enrascada? Agora vais comigo!

Pouco tempo depois, os dois saem pelas ruas até chegar em frente à uma casa verde. Batem à porta e são convidados a entrar.

A Senhora Marcília apresenta o seu filho. É um adolescente de uns 16 anos.

- Bem, rapaz, queres conversar?

- É... mas...

- Quem sabe se formos até a padaria comprar uns quitutes? Lá sentamos no balcão e conversamos mais à vontade?

O jovem sorri já se sentindo mais à vontade, e os dois vão para a padaria. No caminho o homem pergunta ao garoto:

- Estás com dificuldade com alguma rapariga?

- Não. É o meu pai.

- Sei. E o que tem seu pai?

- Tu não o sabes?

- Desculpa garoto. Estou aqui um pouco por acaso. Não estou a par das fofocas.

- É que meus pais se separaram.

- Sim.

- Meu pai foi infiel. Mamãe o expulsou de casa.

- Bem, neste caso vamos precisar de muitos quitutes. Mas a conversa vai ser um pouco longa e o balcão da padaria não será o melhor lugar para conversarmos.

Os dois entram na padaria e escolhem algumas guloseimas.

Logo estão de volta e o homem sugere:

- Quem sabe se servirmos a mesa para um café e convidarmos tua mãe para participar?

- E eu? - pergunta a camareira.

- Tu ajudas a servir a mesa, depois estás dispensada.

- Assim?

- O assunto é sério. Depois a gente se fala.

A camareira fica contrariada. Certamente gostaria de participar. O homem se despede dela falando com voz baixa e meiga:

- Não fica triste. Logo te ponho a par dos acontecimentos.

A camareira sorri e vai se embora.


Na mesa sentam-se os três: mãe, filho e um homem um tanto exótico.

- Seu filho me disse que teu marido não lhe foi fiel.

- Sim - ela responde - eu descobri isto há pouco tempo.

- E mamãe mandou papai para fora de casa.

- Entendo.

- Eu não consigo mais olhar para a cara daquele...

- Calma, senhora. Ele É uma boa pessoa.

- E tu o conheces?

- Não. Mas há alguns anos a senhora se apaixonou por ele, não foi?

- É... maldita hora em que eu me apaixonei.

- Não fica assim. Eu tenho certeza de que vocês viveram momentos muito lindos juntos. E ele lhe deu este filho tão especial.

- É verdade. Não entendo porque é que ele fez isto comigo.

- Os bêbados da Rua do Ouvidor sofrem por beber, pois no dia seguinte acordam de ressaca no banco da praça. No entanto, tornam a beber.

- Meu marido não bebia.

- Quero dizer que as pessoas fazem coisas das quais se arrependem.

- Eu não vou perdoá-lo. Se estás pensando que...

- Não senhora. Fizestes bem em botá-lo para fora. Mas ele se arrepende do que fez.

- Ele me disse mesmo que está arrependido. Mas eu não quero perdoá-lo.

- Olha senhora: o importante não é que venhas a perdoá-lo. Importante é saber que ele ama a senhora e o seu filho.

- Mas senhor! Como vou acreditar no amor de alguém infiel?

- Como é que vou lhe explicar... a alma humana é um tanto confusa. Amor, desejos, gostos e desgostos andam sempre misturados. Seu marido fez o que não devia, seguiu um desejo momentâneo sem pensar nas conseqüências. E agora ele vai sofrer as conseqüências.

O interlocutor faz uma pausa, depois continua:

- Mas ele continuará a amar a senhora e seu filho. Mesmo separados, tudo isto que se criou ao longo dos anos não vai se sumir assim de uma hora para outra.

- Eu amo meu marido, mas não vou conseguir mais viver com ele.

- Sim, e ele ama a senhora e seu filho.

O jovem diz:

- Eu gosto do meu pai.

- E tenho certeza de que ele também te ama, do fundo do coração.

- Mas o que vai ser agora?

- Vocês serão grandes amigos. Ele não vai deixar de ser seu pai. Talvez não venham a se ver todos os dias, mas um dia também você vai se casar, vai ter sua família... e o importante é esta amizade que existe entre você, seu pai e sua mãe.

- E o que eu faço?

- Diga ao seu pai que você gosta dele.

- Dizer? - o jovem fica embaraçado.

- Não precisa dizer. Convide-o para um passeio até a praia, ou convide-o para levá-lo ao comércio comprar um sapato novo para você.

A mulher então fala:

- Acho que estou entendendo.

- Certamente é uma situação desconfortável para todos. Mas não é o fim da vida, nem será o fim da vossa felicidade.

Após algum silêncio o jovem então fala:

- O senhor é... esquisito... quero dizer... diferente. É como um médico de família.

- O senhor trata deste assunto com tanta desenvoltura, e é tão jovem - diz a mulher, ao que o homem responde:

- Onde eu vivo isto é bastante comum.

- Nossa! - exclama a mulher - e onde é este lugar?

- Na verdade a pergunta não é "onde", mas "quando".

- Não entendo.

- Bem... é difícil de explicar. Eu não sou deste tempo.

- Ah não? - perguntam mãe e filho.

- Podeis notar que sou um tanto diferente...

Todos ríem.

- Lá isto é verdade!

- Pois é. Nem eu sei ao certo como vim parar aqui.

Todos ficam em silêncio.

- E de quando você vem - pergunta o garoto.

- O ano é 2013.

- Nossa! Então falta mais de cem anos para o senhor nascer!

- É... nosso homem esquisito calcula em sua cabeça - Na verdade um pouco menos.

- E como é o futuro? Digo: como é no tempo em que você vive?

- Puxa vida! Como posso lhe explicar, por onde hei de começar?

- Dizem que daqui há alguns anos, todas as casas terão luz elétrica e telefone. Até nas casas mais pobres.

- Isto é verdade sim. E no lugar das carroças, as pessoas andarão de automóvel.

- Nossa! Isto deve ser muito legal!

- É legal mesmo. Mas nem tudo lá é tão bom assim.

- E porque não haveria de ser?

- Porque cada tempo tem seu desafio. As casas tem luz elétrica, as ruas são repletas de automóveis, mas isto não fez com que todas as pessoas saíssem da pobreza.

- E pode um pobre ter luz elétrica?

- Os tempos mudam. No tempo de Jesus, apenas os ricos se correspondiam. Apenas algumas pessoas podiam tocar em uma bíblia. Hoje o correio leva e trás cartas por algumas moedas, e todos podem comprar livros impressos e jornais. Da mesma forma, no futuro, a luz elétrica não será um luxo só para os mais abastados.

- Nossa! Nem consigo imaginar como um futuro destes possa ser ruim.

- Mas é bem pior do que você imagina, e ao mesmo tempo tem coisas muito mais maravilhosas do que você possa imaginar.

- Como o quê?

- Você já viu um cinescópio? Como estes dos cinemas?

- Sim.

- Pois no futuro, todos terão pequenos aparelhos elétricos semelhantes a cinescópios, onde poderão ver seus amigos distantes, assistir a peças de teatro e até mesmo ver coisas que estão acontecendo neste exato momento em lugares distantes do mundo.

- Uau! Isto deve ser muito legal!

- Se é.

- E porque dissestes que é pior do que podemos imaginar? - perguntou a mulher.

- Cada vez mais as pessoas estão desejando serem livres, para escolherem com o que desejam trabalhar, com quem desejam se casar...

- Isto já está acontecendo - replicou a mulher.

- Pois cada vez mais as pessoas terão liberdade no futuro. Por outro lado, mais vão se esquecer dos bons costumes, da família...

- Assim como meu marido?

- É. Como seu marido. Não quer dizer que todas as pessoas serão insensatas, mas uma grande maioria tomará decisões sem medir as conseqüências, e isto trará sofrimento para as pessoas, para as famílias. Se, por um lado, as pessoas não serão mais obrigadas a se casarem à força, por outro lado, muitos casais logo se separarão, por falta de saberem cultivar o amor.

O homem esquisito faz uma pausa.

- Você estuda? - Pergunta ao jovem.

- Sim - ele responde.

- No futuro todos poderão ir à escola. Na verdade isto será uma lei nacional. Haverão escolas públicas para todos. Todos deverão aprender a ler e a escrever. Mas os professores serão proibidos de punir os alunos, e, na maioria das escolas, as aulas serão uma grande baderna.

- Nossa! Minha mãe paga tão caro pelos meus estudos!

- Na verdade, naquele tempo, as famílias que tiverem condições, também irão preferir pagar por escolas particulares. Se todos soubessem aproveitar as oportunidades, não haveria porque não estudar em escolas públicas. Mas muitas crianças e adolescentes sentirão uma grande revolta por serem maltratadas pelos pais, por terem pais separados... e irão para a escola contra vontade.

- Que complicado! - exclama o garoto.

- É... será um tempo de grande confusão. As mulheres terão direitos iguais aos dos homens. Até a presidenta do país será uma mulher! Isto será bom. Mas por outro lado, quase todas as mulheres terão que trabalhar fora de casa para ajudar seus maridos, e nem as mais ricas escaparão. Pode ser favorável, mas os filhos ficarão pouco com seus pais. Muitos terão que ficar horas sozinhos em casa, esperando seus pais chegarem do trabalho. Muitos ficarão olhando para o cinescópio, chamado Televisão.

- Isto é legal - diz o garoto

- Mas a Televisão não preenche o vazio de viver tanto tempo sem os pais. E este é o principal motivo pelo qual haverá sofrimento no futuro: tantas coisas maravilhosas inventadas pelo homem farão, ao mesmo tempo, que ele se esqueça daquilo que é mais importante, que é o amor, a amizade, a educação, a família...

- Mas o senhor não parece estar tão perdido. - diz a mulher - És um grande amigo, mal nos conhecemos.

- E graças a Deus não sou o único. A liberdade não é ruim. Apenas as pessoas precisam aprender que tudo o que fizerem ou deixarem de fazer terá conseqüências. Se tiverem disposição para aceitar estas conseqüências, então poderão fazer escolhas sensatas.

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