Ângelo Beck

Um currículo bem humorado

  • Olá chefe! O senhor mandou que eu separasse alguns currículuns, e eu encontrei este aqui. É meio esquisito... mas parece interessante.

Na verdade isto nem parece um currículum! Mas o rapaz do RH deixa o currículum na sua mão e vai embora. Esta história começou um pouco antes, quando este currículum curioso chegou ao RH há algumas horas.

Os currículuns são práticos: o responsável pelo RH olha para o papel e vai direto no campo:

Formação?:
Técnico em Eletrônica - IFET-SC

Então balança a cabeça e pensa: "Este não tem ensino superior"... Então, copia aquela mensagem padrão: "Sua qualificação não é suficiente para o cargo pleiteado, blá, blá, blá... Seu currículum ficará em nosso banco de dados aguardando uma outra oportunidade." Aí pensa: "Menos um para mandar para o chefe."

Na verdade esta não é a minha formação completa. Fiz curso de montagem e manutenção de computadores no SENAC, um curso de Redes na Sistemic... Mas, depois que fiquei cego, desisti de desmontar o computador dos outros - agora só desmonto o meu, claro! Além disto, sou formado em Pedagogia Waldorf, mas como isto só tem importância para as escolas Waldorf, também não precisou colocar no currículum. Talvez, quem sabe isto seja útil se alguém quiser me contratar para dar treinamento... Mas o que mesmo que significa Waldorf? Bem... isto é uma pedagogia alemã, idealizada pelo filósofo Rudolf Steiner. Eu tive a felicidade de estudar em uma escola Waldorf em Florianópolis. Mas é uma pena que Escolas Waldorf não sejam tão conhecidas no ?Brasil. Nos EUA, sei até que os filhos dos diretores da Google, da HP, enfim... daquele pessoal lá do Vale do Silício, estudam em Escolas Waldorf porque seus pais acreditam que esta metodologia enfatiza a criatividade.

Ah! É mesmo: eu ia me esquecendo de que fiz um curso de hipnose e sou iniciado em Rei ki... Mas deixa isto para lá.

O sujeito do RH é tão eficiente, que eliminou todos os currículuns. Não sobrou nenhum. E agora? O que vai mandar para o chefe? Então ele abre novamente o banco de dados disposto a encontrar alguém, mesmo que não tenha formação superior. Aí olha para o campo "Endereço" e lê:

Endereço:
Rua Vera Cruz, 131A Casa 1
Setor Pampulha
Formosa - GO
73805-325

Ele pensa: "O que é que um sujeito de Formosa quer em Florianópolis?" Mais uma vez o currículum é deixado de lado. Eu sempre achei que as informações do currículum não são úteis. Se o salário for bom, nada me impede de me mudar para Jurerê. Por outro lado, se eu não encontrar emprego, talvez vá morar debaixo da ponte... As pessoas se preocupam com cada coisa...

Mas depois de analisar todos os currículuns, novamente não restou nenhum... Então mais uma vez o processo recomeça, e o sujeito está disposto a contratar alguém, mesmo que more na China. Mais uma vez este currículum cai na mão do analista, que lê:

C aracterísticas:

Boa apresentação; comunicativo; 
boa oratória; deficiente visual.

Deficiente visual? Este tipo de gente é boa para a empresa, afinal, não temos deficientes no nosso quadro de funcionários e por isto estamos pagando uma multa pesada. Mas deficiente dá muito trabalho.

Bem... nisto eu concordo com o sujeito do RH: Se o cara é cadeirante, tem que fazer rampa; se é surdo, alguém tem que saber libras; se for um cego, alguém tem que levar e buscar na rodoviária ou no metrô... É claro que, se tivessem construído os prédios com rampas, se houvessem melhores sinalizações e se os transportes fossem mais acessíveis, não precisava disto. Mas até um tempo atrás os deficientes viviam na era das cavernas - ou pelo menos trancados nelas... Agora resolveram dar as caras e todo o restante do mundo está sendo obrigado a se adaptar.

Então o analista fica curioso e procura saber um pouco mais sobre um sujeito cego de Formosa que se diz programador...

Experiência:
Sistemic        
Cargo: Estagiário
Atividades desenvolvidas: manutenção de equipamentos e material Didático para cursos de informática e clientes externos
Início: julho de 2000      Duração: 600 horas

ACIC Fone: 48 – 2380129
Cargo: Professor
Atividades desenvolvidas: Curso básico de Internet 
para deficientes visuais
Início: outubro de 2002    Duração: 120 horas
Projeto Oficina Escola  - Sociedade João Paulo II 
Fone:48 – 2420061
Cargo: Professor
Atividades desenvolvidas: Curso profissionalizante de 
montagem e Manutenção de microcomputadores
Início: março de 2003      Duração: 600 horas

Que interessante - pensa o analista - mas o que será que este sujeito fez nos últimos dez anos? Só porque tem 32 acha que é igual a Jesus, que passou tantos anos sumido no deserto?

Bem... Nestes dez últimos anos trabalhei em uma ONG em Anitápolis - SC... mas nem adianta procurar no mapa! É o interior do interior do interior. Foi o último lugar de Santa Catarina a ser colonizado, de tão remoto que é! E, para falar a verdade, nos últimos 5 anos, depois de procurar emprego, requeri a um benefício a que tenho direito - afinal, as empresas preferem pagar a multa por não empregar deficientes... nada mais justo do que eu receber uma parte deste dinheiro!

Aproveitei estes últimos anos, vivendo uma vida praticamente de aposentado, para aprender a programar PHP. Afinal, sendo cego, queria encontrar alguma atividade na qual eu pudesse me sentir totalmente à vontade; uma atividade na qual eu não sofresse a barreira da limitação visual. Eu gostaria muito de fazer uma faculdade de Física, porém, foi tão difícil concluir o curso técnico em Eletrônica, que fiquei um tanto traumatizado. Está certo que este sonho ainda não morreu... quem sabe um dia, não é mesmo?

Pois é: aprendi a programar o PHP sozinho mesmo. Foram muitos anos até me sentir capaz de oferecer os meus serviços. Quando comecei, nem sabia o que era um "objeto" de programação. Antes de ficar cego, há uns dez anos, eu era daqueles adolescentes micreiros que fazia páginas para os amigos e pequenas instituições. Na época, os navegadores ainda diferiam muito em relação à apresentação do HTML, de folhas de estilos, o que me levou a fazer belos trabalhos em Flash. Quando fiquei cego, descobri que eu mesmo não podia mais acessar os trabalhos que eu fazia. Agora, com o HTML5, as coisas melhoraram muito. Mas, na impossibilidade de lidar com a aparência das páginas, decidi me dedicar à programação.

É claro que também tenho dez anos de experiência como deficiente visual. Embora já tenha nascido com uma má formação ocular, pela qual fui submetido à diversas cirurgias ainda pequeno, pude enxergar o suficiente para andar de bicicleta, fazer a iluminação dos teatros da escola, desenhar, soltar papagaios, e pude enxergar tantas coisas bonitas... Sempre fui interessado pelos fenômenos elétricos e pela luz. Daí o meu interesse pela Física e pela informática.

Interesses:
Física, 
Filosofia (Antroposofia), 
Música (Execução de alguns instrumentos - violão e gaita de boca)

Sabe? Eu não acho que os currículuns são uma forma muito eficiente de apresentação. Onde é que eu coloco aí que eu conheci a minha companheira tocando violão no Hospital de Base? Pois é: eu estava fazendo um trabalho voluntário no Hospital, tocando música para os pacientes, até que entrei em uma enfermaria e encontrei aquela mulher tão especial... Um cego não pode ter um "amor à primeira vista"... mas foi, vamos dizer, simpatia ao primeiro encontro. E este foi o motivo de, há 4 anos, eu decidir sair do interior de Santa Catarina para vir morar em Formosa.

Então você, sendo o chefe, dá uma olhada no que pretende este tal Ângelo:

Cargo pretendido:
Programador PHP - desenvolvimento de gerenciamento de conteúdos com (ou sem) banco de dados SQL.
Instrutor - treinamentos na área de programação para quem pode (ou não) enxergar

Mais uma vez, acho que estes currículuns não dão muita abertura para que a gente possa colocar tudo o que deveria. Muita gente já me falou que eu deveria dar palestras motivacionais, daquelas que alguém tenta convencer uma turma de funcionários aborrecidos de que a vida é boa, de que trabalhar é legal... Mas como eu faria isto se eu mesmo não trabalho? Eu seria um hipócrita, levando uma vida de aposentado, querendo convencer os outros a trabalhar.

Na verdade eu acredito que trabalhar é bom sim. Mesmo desempregado, sempre desenvolvi alguma coisa. Seja como voluntário, tocando música no Hospital (o que me rendeu um belo casamento); seja como escritor amador, escrevendo um livro de ficção científica; seja aprendendo a programar, onde estou desenvolvendo meu próprio gerenciador de conteúdos. Resolvi até escrever um livro sobre programação. Mas tanto o livro quanto o gerenciador estão pela metade, e a renda está curta. Para desenvolver estes projetos eu precisarei investir não apenas tempo.

É... talvez dar palestras motivacionais não seja uma má idéia!

Mas agora vamos ao que interessa: eu preciso trabalhar, e você não vai deixar de me contratar só porque eu não consegui formatar o meu currículum no Word, né?

Está certo que este currículum é um tanto diferente do tradicional. Mas eu sou também um pouco não tradicional (será que eu herdei isto da Escola Waldorf?) Veja: eu sou simpático, criativo, carismático... (acho que é por isto que o pastor quer que eu vá pregar na igreja!).

Contatos:
Telefone (Tim): 61 - 98108 60 70
Telefone : 61 – 99 88 383 11
E-mail:

Contrata! Contrata! Olha: prometo que vou me comportar! :-)

Agradeço a sua paciência. Vai me desculpando por eu não ter conseguido escrever um currículum mais resumido. Espero que pelo menos você tenha achado divertido. Aliás, sou educado, divertido e nem sempre modesto. Mas sempre sou sincero, pode confiar.

Não deixa de me chamar para uma entrevista, Ok?

Ângelo Beck


PS: Apesar de os meus dados pessoais - CPF e RG - estarem sendo roubados diretamente do banco de dados da Polícia Federal, não vou escrevê-los aqui por uma questão de segurança. Nasci em dezembro de 1980, se você prestou atenção vai lembrar que tenho 32 anos – agora 37 porque esta carta está engavetada há algum tempo.

PS2: Não adianta me procurar nas redes sociais, só existe um perfil desatualizado por quase uma década no Orkut. Se encontrá-lo, faça o favor de denunciá-lo como falso! Minha página oficial é angelo.ecolabore.net mas não se espante: os desenhos que estão lá eu desenhei na época em que eu enxergava.

PS3: Eu não fumo, não bebo café e só uso álcool para limpeza.

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